Posts Tagged ‘ SÃO PAULO ’

O que move a cultura no caminho de sua voz verdadeira

Ao lançar seu blog, o jornalista, crítico musical e produtor,  Mauro Dias discorre sobre o atual momento da cultura brasileira, especialmente da música,  sobre o que há muito o que se falar com honestidade.  Não estamos sós nessa luta. (A.  Alves)

Por Mauro Dias

Mauro DiasTenho ouvido alguma coisa em torno de  trinta discos por semana – títulos que me  são entregues em mãos por amigos,  conhecidos, gente que de alguma forma – muito obrigado, desde antes – dá algum valor à opinião que eu possa ter sobre seu trabalho. É uma imensa responsabilidade opinar sobre trabalho alheio e a confiança que me estendem orgulha e comove. No tempo em que trabalhei em jornais grandes (Globo, Estadão), procurei sempre valorizar a produção independente, abrir mais espaço para os sem-mídia do que para os medalhões. Raciocinando assim: se eu comento o disco novo do Caetano Veloso, nada muda na vida (ou na obra) do Caetano Veloso. Se eu comento o disco (ou o show, ou o encontro numa roda), por exemplo, da Ilana Volcov (sobre cujo “Bangüê”, recém-lançado, extraordinário, vou falar aqui, em postagem próxima), ajudo a tornar Ilana Volcov, um talento indiscutível, um pouco mais conhecida do que ela é.

Claro que a eficácia desse tipo de atitude quando se escreve para um veículo da grande imprensa é muito grande, com repercussão desmedidamente maior do que terá a publicação num blog, numa revista virtual, uma página na nuvem da informática entre centenas de páginas que cuidam de interesse assemelhado.
Mas, por tudo o que tenho ouvido, por tudo o que tem chegado ao meu conhecimento, e considerado o vício profissional de contador de novidades e a ainda presente condição de espectador privilegiado, já que as novidades chegam às minhas mãos, não dá pra ficar calado – não dá para esconder o elogio ou, eventualmente, lamentar uma chance mal aproveitada, gritar contra os absurdos, estabelecer a indignação com as políticas culturais, com o massacre da indústria cultural. E sempre pensando que, de alguma forma, a publicação (a postagem, tá bem) vá, de alguma forma, contribuir para que um número maior (mesmo que um pouquinho só maior) de pessoas tome conhecimento do que acontece na aparentemente inesgotável fonte de coisas boas que é a produção de nosso cancioneiro.
Nos últimos anos houve uma modificação, desde muito tempo prevista, apontada como inevitável, na relação da indústria da música com a música. Os grandes nomes (quase todos) abandonaram a indústria e migraram para selos alternativos, independentes, não comprometidos com o eixo tv&rádio que determina quem, como, quando e onde faz e como faz e o que toca e como toca e quanto toca e estipula o quanto o “produto”, termo da indústria, precisa vender para compensar o investimento em publicidade, em compra de horários, em corrupção de programadores e produtores e os outros integrantes da cadeia (será que a palavra surgiu aqui por acaso?). Bom, os grandes nomes são os mesmos que já eram grandes nomes – aqueles a quem rendemos respeito e graça pelas qualidades intelectuais, pela honestidade da obra, pela lisura no relacionamento da arte. Novos grandes nomes com tais características não chegaram aos ouvidos do grande público e é improvável que cheguem – até por coerência de todas as partes envolvidas. Se a indústria abre mão dos consagrados por considerá-los comercialmente difíceis, o que a levaria a criar outras peças difíceis, dar início ao complexo processo de popularização? Do outro lado da cerca, os criadores insurgentes (ah, como é boa a palavra da língua portuguesa, com sua multiplicidade de sentidos!) também não querem saber daquele círculo viciado que vai tentar moldar seu estilo, conformar sua personalidade, aplainar seus picos de estranhamento, afinar (sentido amplo) sua sensibilidade com a de um espectral “gosto médio” cuja percepção e receptividade é definida por gráficos de consumo.
Dito de outra forma, a arte está de um lado, a indústria de outro e as duas peças não jogam no mesmo tabuleiro.
Há dois anos participei, em Curitiba, de um encontro que reunia associações ligadas à produção independente e à gestão do direito autoral (Aldir Blanc diz que o Brasil não tem direito autoral, tem errado autoral). Representando a produção alternativa estava a Associação Brasileira de Música Independente (ABMI), que abrigava entre seus participantes, na época, 63 gravadoras. A análise da produção fonográfica do ano anterior mostrou o seguinte: as quatro multinacionais do disco que funcionam no Brasil lançaram, no período, 130 títulos. Desses, 75 eram licenciamento de obras produzidas no exterior, e 55, obras nacionais. No mesmo espaço de tempo, as gravadoras independentes levaram ao público 784 discos novos, de produção nacional. Pois bem, aqueles 55 títulos das multinacionais ocuparam 87,37% do tempo de veiculação musical das rádios abertas de todo o País, contra 9,82% do tempo destinados à criação alternativa. (A conta não dá 100% porque não entram no cálculo as compilações feitas, por exemplo, pela Som Livre.)
Na verdade, o absurdo é maior do que esses números apontam, pois nem todas as gravadoras e nem todos os criadores independentes são afiliados da ABMI. Numa estimativa conservadora, pode-se multiplicar por dez aqueles 784 títulos usados para fazer a conta.
E ainda assim, amigos, vale a pena brigar? Claro que vale. Só não valerá para quem considere todo ouvinte burro, todo leitor tapado, todo o público manipulável, toda a cultura inútil. Não valerá para quem tenha perdido o amor-próprio, para quem desdenhe de suas próprias aflições e esperanças, para quem desista do verbo e se encaracole no silêncio de antes da palavra e da música. E eu não acredito que haja gente assim. Pelo menos não em número significativo.
E foi por necessidade vital e responsabilidade intelectual de contribuir, de alguma forma, para vencer a barreira do silêncio, que resolvi começar esse blog. Ele estreou na semana passada, com um comentário sobre o show da cantora Tatiana Parra – um show tão bom que era impossível não escrever sobre ele. A resposta foi bacana e mereci algumas delicadas correções. Uma delas tratando de caso grave: não incluí no texto o nome dos músicos participantes do espetáculo, nem os dos diretores e técnicos, todos tão importantes para a qualidade formidável do resultado. Apresento minhas escusas.
Assim, na semana passada dei o pontapé inicial, movido pela coceira na ponta dos dedos das mãos, pela inapelável necessidade de dividir com mais pessoas a emoção que me tomou depois do show que tive a graça de ver. Hoje tento expor as razões daquele pontapé e justificar, com o peso de alguns números e o peso maior da emoção, a disposição (e a pretensão) de montar guarda, ao lado de tanta gente que admiro, e de tanta gente que virei a admirar, nessa guerrilha de remissão. Pois comecei. Quero falar de shows, de discos, de encontros, de rodas, de conversas, de surpresas, de sentimentos, de política, de atitude, de tomada de posição, de resistência, de impaciência e indignação – do que move um povo, uma cultura, no caminho de sua voz verdadeira. Eu sei que é pouco. Eu sei que é muito.

Anúncios

Tatiana Parra, por Mauro Dias

Tatiana Parra é, por gasta que seja a expressão, uma rara unanimidade no meio musical paulistano de agora. Quem faz música ou admira ou está envolvido com música sabe de sua afinação e bom gosto, dedicação e seriedade, da graça de seu misto de ingenuidade e malícia. Créditos que são, feitas as contas, indispensáveis a quem queira subir ao palco como porta-voz (e quem precisa de cantora que não seja porta-voz, afinal?).

Tanto assim que o primeiro disco de Tatiana vinha sendo esperado como grande acontecimento. (leia mais)

SOUL DA Z/L: NHOCUNÉ SOUL

A história da banda Nhocuné Soul, começa com a origem social de seus integrantes e o conjunto de influências que transitam do samba tradicional a  Jorge Ben e Tim Maia.

“Éramos calcados na MPB mais tradicional, fomos nos transformando mais num ritmo samba rock. Trago na letra a experiência de vida e a crítica da realidade social como questões de moradia e relação entre periferia e centro. Mas, toco também em temas universais como amor e esperança”, define Renato Gama, vocalista e compositor do grupo.

Jhony Guima, cantor e percussionista, foi integrante de bandas como o Originais do Samba e Os Negossócios, é um dos músicos mais experiente da Nhocuné Soul; Juninho Batucada, também cantor e percussionista, tem influências que vão de Sepultura e Marku Ribas. Traz no seu set diversos instrumentos que ele adaptou, como: cano de conduiti, chapa de fogão e garrafas de vidros; Ronaldo Gama, contrabaixista clássico, já acompanhou diversos nomes da musica brasileira, como: Dudu Nobre, Neuza Pinheiro e Raça Negra; Julio César Silva – Músico desde 1989, toca diversos estilos musicais e participou de diversas bandas/grupos na noite paulistana.Luiz Couto, cantor e guitarrista, acrescenta peso ao suingue com elementos de rock, dub e psicodelia e por fim Renato Gama, cantor, compositor e violonista. Atribui às interpretações da banda características que remetem a uma mistura de Tim Maia com Branca di Neve. É principal responsável pelas composições da banda, nas quais descreve com poesia o cotidiano da vida na periferia, particularmente do bairro da Zona Leste paulistana que deu nome ao grupo, a Vila Nhocuné.

[videolog 338156]

do site da banda

TRITONO BLUES

O TRITONO BLUES nasceu em 2006 reunindo três grandes músicos paulistanos. Com uma formação pouco convencional: piano, voz e gaita, ao vivo, tem-se a nítida impressão de ouvir uma banda completa, pois os baixos do piano são completados com a marcação da percussão.

No repertório, além dos clássicos do Blues e da Soul Music, com versões de Ray Charles, BB King, Muddy Waters, Otis Reding, exploram versões de Classicos do Rock, Pop e Bossa Nova, fundindo esses gêneros com a linguagem blues. É possível ouvir Tim Maia, James Brown, Jair Rodrigues e Lulu Santos em uma só música.

Bruno Sant’anna, grande cantor de Blues, além de percussionista e gaitista. É lider da Bruno Sant’anna Blues Band e também integrante da banda de Blues-Rock Blindog, com dois CDs lançados.

André Youssef, pianista e organista, que acompanha grandes nomes do blues nacional e internacional. Atualmente também integrande da banda de Nasi (Ex-IRA!)

André Carlini, gaitista de estilo inconfundível, líder da banda de funk-groove-jazz Lado Black e coordenador da pasta de harmonica da EM&T (Escola de Música e Tecnologia).

O Tritono Blues marca presença na programação da noite paulistana, apresenta-se em casas como O’Malley’s, Bourbon Street, Tom Jazz, The Black Horse, Drake’s Bar, O Garimpo, Bartholomeu entre outras.

Nos últimos anos o tritono blues participou de festivais importantes como o Festival Internacional Sons&Sonidos Eldorado realizado no Bourbon Street, ao lado de nomes como Yamandu Costa, Gonzalo Rubalcaba e Banda Mantiqueira; o Festival Vero Tendencies em Alphaville, ao lado de Nando Reis, Paula Lima e Toquinho; o Festival de Inverno de Aldeia da Serra, abrindo o show de Nuno Mindelis; o projeto “Todas as Bossas” realizado pelo SESC Bauru, o projeto “Sonora” no SESC Rio Preto e o Festival de Inverno de Santana do Parnaíba.

Ele, a brisa e a modéstia de um vanguardista

Nunca ninguém neste país, até aquele ano de 1953, havia feito algo na música popular como aquele mulato fizera ao piano. O instrumento parecia cercar a voz, abandonando o ritmo, desvinculado do contra-baixo e da bateria. A música causou comoção entre os jovens músicos boa parte do público do Bar do hotel Plaza, onde Alfredo tocava. A composição, constatou-se depois, era o mais forte prenúncio do que viria a acontecer com a Música Popular Brasileira mais à frente. Influência do jazz, as síncopes e dissonâncias de Rapaz de bem, impressionaram, inclusive no modo como foram cantadas, em que a voz era como se fosse extensão da harmonia. A música foi gravada em 1956. Do outro lado desse disco, havia a também dissonante Céu e mar, também de sua autoria. Era o segundo disco 78 rpm de Johhny Alf, o pianista de bares e restaurantes famosos do Rio de Janeiro de então.
Nascido e criado pela mãe viúva empregada doméstica em Vila Isabel, filho único, como todos os jovens de sua idade, cresceu ouvindo os programas de rádio, principalmente a Rádio Nacional e assistindo aos grandes musicais do cinema. Uma professora de piano, amiga da família, percebeu que o garoto tinha bom ouvido musical e recomendou que estudasse o instrumento. Nos estudos de piano entrou em contato com a música clássica. A formação teórica, a prática do instrumento e o ouvido musical levaram-no a se enveredar pelo repertório de música popular com a criatividade e inquietação marcantes da época. Aquela que ouvia no rádio de então, a brasileira e também a música norte-americana, numa fase particularmente agitada e criativa do jazz – a era do be-bop, no final dos anos 1940.
Ainda jovem, formou com amigos do curso de inglês, um clube para intercâmbio entre música brasileira e música norte-americana, que promovia eventos e contou com membros como os jovens músicos e cantoras Tom Jobim, Dóris Monteiro, Nora Ney, Paulo Moura, João Donato, Luiz Bonfá e Bebeto Castilho. Com a chegada dos EUA do cantor Dick Farney – também associado – o clube tornou-se o histórico clube Sinatra-Farney Fã-Clube. Esse envolvimento dos músicos de então, ansiosos por uma abordagem moderna da música popular brasileira, deflagrou a Bossa-Nova.
Quando a gravação de Rapaz de bem chegou a São Paulo provocou no mesmo público sentimento similar ao havido no Rio, o que despertou o interesse de uma nova casa noturna, a Baiúca que o contratou, levando-o a mudar-se para a cidade. Quando João Gilberto lançou Chega de saudade, lançando a bossa-nova, seu grande precursor não morava no Rio de Janeiro. Elementos presentes em Rapaz de bem podiam ser percebidos em Desafinado, algo natural, pois Newton Mendonça dividia inquietações criativas e o piano do Plaza com Johnny.

Alfredo adotou o nome de Johnny Alf por sugestão de um professor de inglês e começou a se apresentar na noite carioca, nos bares de Copacabana. Seu modo de cantar ia na contramão dos vozeirões, como os novos cantores faziam, mas com estilo próprio, sempre marcante em todas as suas interpretações, seja de músicas próprias, seja de compositores dos anos 30-40, como Noel Rosa, seja de seus contemporâneos como Tom Jobim, de estrelas da MPB como Chico Buarque e Gilberto Gil. Sempre escolheu as músicas com harmonias mais intricadas, sua especialidade. Era capaz de oferecer uma releitura única de sucessos gravados por intérpretes marcantes como Chico Alves e Aracy de Almeida.
Sempre teve noção de que suas músicas eram complexas e, portanto, de difícil assimilação para o grande público, mas ao mesmo tempo por serem diferentes também atraiam fãs, especialmente músicos. Seu maior sucesso, no entanto, tem uma história exemplar.
Compôs a melodia de Eu e a brisa para a cerimônia de casamento de um amigo, que acabou não sendo executada. Tempos depois, soube que a cantora Márcia queria uma música para concorrer no III Festival da Música Popular Brasileira (1967, TV Record). Escreveu a letra e entregou à cantora. Segundo Zuza Homem de Mello, durante o ensaio a música foi ovacionada pelo público composto de técnicos, músicos, compositores e cantores. Num festival particularmente rico artisticamente, com a presença dos melhores nomes da música popular brasileira de então, a música não foi classificada, como não foram tantos outros, hoje, clássicos. Um fator curioso, no entanto, fez com que Eu e a brisa se popularizasse. Flávio Cavalcanti, carioca apresentador popular de TV passou a divulgá-la em seu programa, tornando este o maior sucesso de Johnny.
Seus 67 anos de carreira, foram marcados por apresentações em diversos países e pela realização de discos impecáveis. Caracterizou-se pela imagem do homem solitário, de poucas palavras nas entrevistas e nos shows.
A solidão marcou mais ainda os últimos anos de um pacato Johnny, que não foi ao histórico show do Carneggie Hall em 19621 porque “esqueceu”. De fato, a relação de Johnny era com a música, o que o levava a priorizar outros aspectos, talvez um hábito de inquieto músico da noite, que nunca deixou de produzir, se apresentando em diversos países, inclusive.
Um dos grandes nomes da música popular brasileira que não recebeu o destaque merecido, não por ter sido – é um grande mérito! – o precursor da Bossa-nova, mas essencialmente por ser um prolífero compositor, fiel a seu estilo e cuja modernidade ainda não foi totalmente absorvida.
Viveu os últimos dois anos de sua vida numa casa de repouso em Santo André, região metropolitana de São Paulo. Declarou que ouvia rock pela manhã, para despertar, mas sua música favorita era a obra Aprés-midi d’um faune de Claude Debussy e, dentre as canções, The Shadow of your smile (Johnny Mandel/Paul F. Webster).
É chamado de o epítome (o que resume, o que serve como modelo ideal) pelo crítico Luis Antônio Giron para quem era “um dos grandes conhecedores de linguagem musical (…) um cantor de alterações harmônicas”.
A melhor definição fica por conta do musicólogo Zuza Homem de Mello, no livro Eis aqui os bossa-nova,: “Johnny Alf foi um verdadeiro desbravador na modernidade da música brasileira, o ídolo dos Bossa-Nova, mais que um precursor. Foi o inspirador que deu aos jovens que frequentavam o bar do Plaza a certeza de que o sonho imaginado poderia ser encontrado, pois sua estética musical – compondo, tocando e cantando – caía como uma luva para suas ansiedades… O mais modesto de todos os vanguardistas na música brasileira” :
Alfredo José da Silva, Rio de Janeiro, 19/05/1929 – São Paulo, 04/03/2010

Fontes e mais sobre Johnny: entrevistas concedidas aos programas  da rádio cultura de Luiz Antonio Giron, A voz popular e de Arrigo Barnabé, Supertônica. e Dicionário Cravo Albin

RODA DE SAMBA PAULISTA – Projeto nosso samba

A brincadeira de Vinícius de Moraes que taxou São Paulo como o túmulo do samba é mais um exemplo da arte carioca de não perder a piada. O poeta conhecia muito bem os redutos musicais da cidade e tinha contato com seus grandes sambistas. Sabia da relação da metrópole com a diversidade musical e com o nível de expressividade do gênero ali. Foi uma boa provocação dirigida à cidade que sempre viveu bem com o samba, mesmo nos momentos em que o gênero andou esquecido.
Tanto quanto a Lapa carioca retomou seu espaço de bairro boêmio graças aos sambistas que se reuniam nos antigos botecos, bairros paulistanos como a Vila Madalena viram surgir, primeiro botecos, e depois inúmeras casas dedicadas ao samba, que já resistia na periferia paulistana.
Muitas dessas rodas têm assumido a forma de projetos onde fãs, compositores, intérpretes e músicos se dedicam periodicamente ao samba sem o compromisso material, pelo grande prazer de cantar e sambar. Ao mesmo tempo, encampam projetos sociais sempre ligados à cultura, especialmente à afro-brasileira.
Já tratamos aqui dos paulistanos Samba da Vela e do Terreiro Grande. Outro bom exemplo é o Movimento Cultural Projeto Nosso Samba que se reúne quinzenalmente no município de Osasco, região metropolitana, a partir do encontro de um grupo de 40 amigos que se encontra desde setembro de 1998, conforme seu site. Além de cantarem músicas de autores representativos do gênero, apresentam composições de paulistanos, criando com isso um espaço de repercussão do novo. A próxima roda acontecerá em 22/11 às 16:00 h (entrada franca), na Casa de Cultura Afro-Brasileira Casa de Angola.
Na celebração dos 11 anos do projeto foi editado um caderno especial que pode ser lido no site ou no blog.
da galera.

Composições de integrantes do movimento: Pedra na Cruz (Selito SD) e Maré Brava (Ari bicudo).

OS MUTANTES – o deboche da aldeia que virou universal

(brincando com Tolstoi)

Em 1966, na cidade de São Paulo, os dois filhos de pianista erudita, Arnaldo e Sérgio uniram-se à filha de americanos Rita Lee Jones e formaram a banda Os Mutantes. Poderiam ser mais um grupo de iê-iê-iê (nome pelo qual se denominava, no Brasil a música jovem baseada no rock de então, que tinha como estrela principal Roberto Carlos).
Não o foram, pelo atrevimento, formação musical do trio e seu interesse pelas tendências do rock da época, notadamente pela nova sonoridade dos Beatles, que havia sido demonstrada no disco Revolver (1966) que associava outros instrumentos às guitarras, bateria e baixo elétrico, além das experiências dos arranjos que misturavam recortes de outras músicas, dissonâncias e música erudita, sob o comando no maestro George Martin.
No Brasil, coube a Rogério Duprat introduzir formalmente esses elementos ao assumir os arranjos das músicas do movimento Tropicalista, conferindo-lhe a modernidade proposta por seus integrantes (especialmente Caetano Veloso e Gilberto Gil). A proposta juntava a música popular brasileira – seus instrumentos e temas – aos arranjos modernos que continham o rock, à distorção de instrumentos e vozes, a música eletroacústica e elementos essenciais da música erudita, particularmente da música concreta.
Os Mutantes enquadraram-se perfeitamente, inicialmente como coadjuvantes, acompanhando de modo significativo Domingo no Parque (Gilberto Gil, 1967) e em 1968 participando do disco Tropicália com a bela Panis et Circensis, também de Gil.

Os três eram multi-instrumentistas, possuíam, portanto, a versatilidade da execução e estavam completamente envolvidos com a cultura pop de então. Fizeram sucesso junto ao público jovem em suas partciapações nos concorridos festivais de música, o que fez com que rapidamente foram contratados pela gravadora Polydor e iniciaram carreira própria, lançando 5 álbuns entre 1968 e 1972. Seus discos mantiveram os elementos fundamentais da Tropicália, assegurados pela presença de Rogério Duprat, nos arranjos, realçando as composições próprias, e de compositores menos famosos do movimento, como Tom Zé, com a bem-humorada moda 2001.
Em 1974 Rita Lee deixa o grupo, para seguir carreira própria, com estilo bem-humorado, mas consolidando carreira de cantora e compositora pop-rock de sucesso entre 1975 e começo dos anos 1980. Arnaldo Batista deixou o grupo para instável e quase incógnita carreira solo, mantendo consigo características de letras e músicas que remetiam à produção anterior da banda, reafirmando seu papel central no trabalho da banda.
Os Mutantes prosseguiram liderados por Sérgio (exímio guitarrista), enveredando-se pelo caminho do rock progressivo, sem qualquer repercussão.
Claramente o contato com o grupo da Tropicália, e fundamentalmente com Rogério Duprat, deu a cara e a consistência aos projetos que o grupo desenvolvia. A receita não poderia mais se repetir.
Com vida curta, contudo, o grupo foi capaz de consolidar influências que se manifestam com clareza nas novas bandas que perseguem hoje o chamado som psicodélico. Como poucas bandas no mundo, e a única fora do eixo EUA e Inglaterra, os Mutantes seguiram à risca o conceito consolidado pelos Beatles: rock, música erudita, distorções, arranjos insólitos de voz e instrumentos, poesia engajada e debochada, e a essencial dose de música do país de origem: a riquíssima Música Popular Brasileira. Tornaram-se universais.

Embora de baixa qualidade, vale à pena assisitr a apresenção de 2001 no IV Festival da Música Popular Brasileira de 1968, com Gilberto Gil no acordeon.

Para ouvir mais Rogério Duprat e Mutantes pode-se buscar nos sites aí do lado (Loronix e Um que tenha).