Arquivo para outubro \28\UTC 2009

Uma coleção de obras-primas

por Caetano Veloso

Há muito tempo não ouço um disco inteiro com tanto entusiasmo no coração quanto esse ‘Pimenteira’. Acho que ouvi Pedro Miranda pela primeira vez numa faixa do CD de Teresa Cristina – e fiquei maravilhado com a musicalidade, a cultura entranhada, a naturalidade, o frescor. Comuniquei meu entusiasmo a Moreno e ele me disse que conhecia Pedro: logo eu estava com o primeiro CD de Pedro nas mãos. O CD confirmava a muito boa impressão causada pela faixa no disco de Teresa. De modo que, agora, quando ele me entregou uma cópia do seu novo disco, eu já me pus em alta expectativa. Mas não imaginava que estivesse diante de um trabalho de tamanho fôlego. Considero este um disco de grande artista. É um disco fácil de ouvir, maneiro, agradável, porém tem força histórica intensa e convida a reflexões complexas e tão profundas que nem a deliciosa paródia de texto acadêmico que vem no encarte (a respeito da alegoria deliberadamente ingênua de Edu Krieger, “Coluna Social”), poderia satirizar.

Para começar, o estilo despojado do cantor, sem afetação, sem tiques nenhuns, dá conta de toda a possível cultura crítica atual relativa ao canto popular brasileiro. Voz maleável, incrivelmente confortável nas regiões agudas, ele mostra destreza e agilidade sem que se perceba esforço de sua parte. E o fraseado revela reverência e familiaridade com a história do samba. Mas é a escolha do repertório que ilumina as virtudes do seu estilo. Esse repertório (para cuja feitura ele agradece a colaboração de Cristina Buarque e Paulão 7 Cordas) diz tudo sobre o que deve ser dito a respeito do que vem acontecendo com o samba, desde que este se tornou emblema da musicalidade brasileira (“O mito é o nada que é tudo”), passando pelo furacão camuflado que foi a bossa nova, e pela sua recolocação no ambiente que o forjou: a boemia que transita entre certos morros e certas áreas do asfalto carioca. Essa recolocação teve como marco inicial a virada que significou, no meio dos anos 1960, coincidirem as insatisfações de Nara Leão com o surgimento do Zicartola, o início das atividades de compositor de Chico Buarque em São Paulo e o estrelato conjunto de Paulinho da Viola e Clementina de Jesus no Rosa de Ouro. Todos os desdobramentos – de Beth Carvalho ao Art Popular, de Zeca Pagodinho ao Psirico, de Arlindo Cruz a Roberta Sá – estão homenageados nesse álbum coeso, sincero e de grande visão.

O arco de compositores vai de Nelson Cavaquinho a Rubinho Jacobina – e, no entanto, a unidade de visão faz de ‘Pimenteira’ uma obra autoral de Pedro Miranda. As melodias, em geral com sabor de choro a caminho da gafieira (mas sem deixar de fora nem a chula baiana nem o coco nordestino), sustentam um virtuosismo poético que, por força da perspectiva da escolha do material (e da ordem em que ele vem), sugere um gosto pessoal, a um tempo apurado, exigente e espontâneo, que atravessa todo o disco. Dos versos elegantes de Paulo César Pinheiro para a música rica de Mauricio Carrilho (com ecos de Bororó) ao fascinante jogo embaralhado de imagens atuais no samba de Moyseis Marques, passando pela “Imagem”, de Trambique e Wilson das Neves, e pelo show de bola de Elton Medeiros e Afonso Machado, tudo em ‘Pimenteira’ transpira grande talento guiado por grande inteligência. O disco fala de tudo o que fala como Nei Lopes fala (na única nota de encarte que não foi escrita por Pedro e Luís Filipe) da série de mulatos que compõem a figura de Compadre Bento: com admiração e intimidade.

Terminei citando muitos dos sambas do disco, mas não é por os achar menos interessantes que não citei alguns: todos são de alta extração, todos fazem o CD soar como uma coleção de obras-primas. O que faz com que esse disco ao mesmo tempo pareça o lançamento de um novo autor e uma antologia de clássicos. Na verdade é o disco que já nasce antológico. A colaboração de Luís Filipe de Lima é decisiva na definição dos arranjos e da sonoridade. Sobre ele (e os demais colaboradores musicais e técnicos) Pedro fala melhor do que eu poderia, nas palavras de agradecimento que escreveu. Quanto a mim, sou mais levado a considerar que a oportunidade foi uma dádiva que Pedro lhes fez.

Eu sempre sou citado como elogiador fácil de moças jovens bonitas que cantam samba. Nunca as elogiei sem que achasse justo fazê-lo. Dizer aqui que o CD de um marmanjo, que nem tipo gatinho é, é algo muito mais importante do que o que essas ninfas têm, em conjunto, alcançado deve dar uma ideia do quanto considero ‘Pimenteira’ um evento especial em nossa música. E, de quebra, pode dar mais credibilidade aos elogios que faço às moças.
(divulgação)

PEDRO MIRANDA lança PIMENTEIRA, novo CD

A geração de sambistas que revitalizaram o gênero na Lapa (Rio de Janeiro) já não pode ser chamada de nova geração. Mais de uma década é passada desde que os primeiros se reuniram em botecos promovendo rodas de samba e choro. E, sim, o veterano Pedro Miranda estava entre estes se apresentando no grupo Semente, no bar pioneiro do mesmo nome, resgastando do “limbo do esquecimento” grandes nomes do samba brasileiro.
Hoje esse grupo de artistas começa a apresentar o próprio trabalho autoral como neste segundo disco de Pedro. Sua voz sem impostação que cometeu duetos perfeitos com Teresa Cristina, dedica-se a composições, com claras referências aos grandes compositores do gênero, mas com a atualidade necessária, afinal são outros tempos.
O show de lançamento será no próximo dia 3, no Teatro Rival, às 19h:30. Para ouvir e obter maiores informações é só visitar a página de Pedro no myspace. O vídeo fica por conta de um dos ótimos duetos com Teresa Cristina. (crítica do CD no Algo a Dizer)

GALOCANTÔ – LIRISMO NO NOVO CD

O novo CD do grupo tem canções inéditas, muitas de autoria dos componentes do Galo. Outras de grandes mestres consagrados. E algumas regravações do fundo do baú. Em comum, a poesia revelada em cada esquina carioca, nas praias, nos bares e nas rodas. Tudo vira samba em “Lirismo do Rio”.
O show terá participações especiais de Wilson Moreira, João Martins e Renato Santos, além da direção irretocável de Túlio Feliciano, um dos mais conceituados diretores de espetáculos musicais do país, que já dirigiu gente do calibre de João Nogueira, Zeca Pagodinho e Fundo de Quintal.
No repertório do espetáculo, além de canções de Lirismo do Rio, músicas do primeiro disco do grupo como  “Galã de Xerém” (Pablo Amaral e Edu Tardin) e “Pão que alimenta” (Edson Cortes, Wantuir e Binho Sá), e clássicos o samba.
Além de shows nas principais casas do Rio de Janeiro como Carioca da Gema, Trapiche Gamboa, Estrela da Lapa, Teatro Odisséia, o Galocantô promovia aos domingos o Terreiro do Galo (projeto que voltará ainda este ano), reunindo centenas de pessoas em torno de uma roda de samba com um clima todo especial.
Formado por Rodrigo Carvalho (voz principal e percussão), Léo Costinha, Edson Cortes e Lula Matos (todos estes percussão e voz), Pablo Amaral (cavaco e voz) e Marcelo Correia (violão de 7), essa boa safra de músicos se uniu no final da década de 90, momento em que a Lapa passava por uma estruturação. O grupo nasceu sob a influência de nomes do quilate de Candeia, D. Ivone Lara e Fundo de Quintal, entre outros.
Show de lançamento no tEatro Rival – RJ neste dia 01/10 – detalhes no site do Galo.